EDUCAÇÃO
"À SCOLARI"
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A copa do Mundo não trouxe somente o título de pentacampeão mundial para o Brasil. Apesar das críticas que recebeu antes e durante a competição, o técnico Luis Felipe Scolari, o Felipão, adotou um método de trabalho que pode servir de modelo para muitos pais e educadores. O ambiente amigável e familiar da seleção mostrou que só talento não ganha jogo, é preciso também saber educar. A alegria da conquista da Copa do Mundo 2002 - sem
dúvida alguma merecida e inesquecível - propiciou, para
muitos, momentos de reflexão e de questionamentos pedagógicos.
Quem trabalha na área de educação, surpreendeu-se,
algumas vezes, com os seus métodos aplicados e, em determinadas
situações, chegou a duvidar de sua eficácia. Porém,
penso que diante do enorme diferencial alcançado e demonstrado
pela família Scolari durante a competição entre as
32 seleções, pode-se tirar diversas lições,
não só para o exercício esportivo, mas também
para a vida e para melhorar qualquer prática de ensino-aprendizagem,
seja nas escolas ou nas empresas. Muitos talvez aleguem que é diferente
educar 23 "marmanjões" do que jovens estudantes, porém,
acredito que - mutatis mutandis - na essência, muito pode
ser aplicado. Em primeiríssimo lugar, chamou a atenção
como o Dr. Felipão soube equilibrar a exigência com o afeto.
Dois aspectos essenciais em qualquer tarefa educacional. Quanto se fala
hoje, em certas famílias ou em certos meios acadêmicos e/ou
psicopedagógicos dos cuidados que se devem ter para não
forçar ninguém a nada, pois pode ser "traumático".
Que é proibido falar a palavra "esforço"; que
não se pode castigar ou punir; que é proibido proibir, pois,
"coitadinhos", poderão se contristar e ficar desequilibrados.
A experiência pedagógica de todos os tempos tem demonstrado,
como também agora na família Scolari, que o que mais une,
que mais aproxima, que mais demonstra amor e carinho verdadeiro é
a cobrança, a exigência, a bronca dada com jeito, o aperto,
o não abrir mão dos princípios, o exercício
necessário, mas muitas vezes sacrificado, da autoridade ("auctoritas",
aquilo que faz crescer)... Quantas fugas deste dever de mandar e quantas omissões,
por medo de ficar mal diante dos outros. Quantas desilusões maternas
são conseqüências de caprichos feitos aos filhos; quantas
decepções educacionais são fruto de professores benevolentes
que têm pena dos seus alunos ou de governantes que estão
interessados em fazer política através da educação
quando deveriam fazer educação através da política.
A explicação destes fenômenos
educacionais positivos ou negativos é simples: quando se exige
a alguém, não se está pensando na alegria/tristeza
sentimental do momento presente, mas na futura, na que vale mais, na que
fica para sempre: na conquista do campeonato mundial, nas metas propostas,
nos objetivos de médio prazo, nos valores que realizam, na felicidade
do outro. A outra, a momentânea, a que parece que é, mas
não é, mais cedo ou mais tarde, é descoberta e quem
é (mal) educado sente-se enganado. "Para que serviu me deixarem
ficar a tarde toda no videogame, se agora não consigo entrar na
faculdade, porque não tenho base? Para que a satisfação,
antigamente, de todos os meus caprichos na comida se hoje não consigo
me controlar na bebida ou em outros prazeres nocivos? Por que me passaram
de ano, sem eu saber nada, se hoje não consigo emprego em nada
porque não sei nada?" A criança, o aluno, o filho,
com o passar do tempo, consegue desmascarar que tudo era ou egoísmo
materno/paterno/docente - que queria se sentir bem, que queria se poupar
da verdadeira, mas exigente, educação/formação
- ou era puro desinteresse. E se revolta, se distancia, se magoa... Por outro lado, quantas boas recordações
- com o passar do tempo - de pais exigentes, de professores que não
faziam "negociatas" ou que não condescendiam, de amigos
que falavam duro quando era preciso, de técnicos de futebol que
não tinham medo da pressão de 170 milhões de pessoas
nem da imprensa ! Alguém já dizia que por trás de
uma supermãe (superprofessora ) - superprotetora, superfacilitadora,
supertransportadora, - há sempre um infrafilho (infra-aluno,
infracidadão, infra-amigo, enfim, infra-humano). Por trás
de um bom braço de pai, duro e exigente, juntamente com o carinho
da mãe, aparecem os filhos equilibrados e vencedores. Um segundo aspecto que ficou claro durante todo o
Mundial e que o Professor Scolari soube transmitir desde o início
de seu trabalho é a importância do espírito de família
para um bom aprendizado. Independentemente da origem do termo ''Família
Scolari'', o que importou mesmo é que ajudou enormemente a criar
um ambiente onde o que mais se valorizava era o conjunto e não
a individualidade. Em nenhum momento, a expectativa principal do torcedor
brasileiro era se tal ou qual jogador estava bem ou ia jogar. O que importava
de fato era a "defesa" do time; se havia ligação
de "defesa" com o "ataque". Só se falava em
grupo, equipe, conjunto, família... Foi impressionante o equilíbrio
da equipe no jogo contra a Inglaterra, quando o jogador Lúcio,
por infelicidade, deu a bandeja um gol para o atacante inglês! Em
outras épocas e em outros jogos - todos lembramos! - a equipe perdia
a harmonia e o controle dos nervos após um erro comprometedor.
Desta vez, o carinho sincero e a força dos "irmãos"
foram decisivos não só para a recuperação
rápida do jogador, mas de toda a equipe. Esse ambiente familiar também é decisivo
quando se quer ensinar ou aprender. É tremendamente pedagógico
um bom ambiente, é estimulante o bom exemplo dos pais e irmãos
no aprendizado. Muitos valores só se aprendem e apreendem quando
se vive num ambiente escolar favorável. Aprender bem exige saber
ouvir e admirar as características e qualidades dos demais, principalmente
dos mais velhos. Na infância e na adolescência, a única
certeza que existe é a que ensinam os pais e depois os professores.
Uma boa educação pede um clima de diálogo franco
e de respeito mútuo. Não há nada de mais deletério,
debilitante e, a longo prazo, desesperador para um adolescente, do que
não se sentir humanamente ajudado a enfrentar o ambiente com a
necessária clareza e decisão, porque lhe faltam pontos de
referência objetivos e sobram-lhe conselhos subjetivistas e relativistas.
A família e a escola têm responsabilidades formadoras fundamentais
para as convicções do jovem e é inconcebível
a sua maciça e, muitas vezes, inconsciente superficialidade. Quando
Felipão lançou a sua cartilha, e impôs limites para
os nossos "marmanjões", quando enquadrou os que precisavam
- como deve fazer qualquer bom pai de família, diretor de escola,
gerente de empresa - estava criando o ambiente favorável da família
Scolari, onde todos devem pensar nos outros e não apenas nos seus
gostos e caprichos pessoais. Estava criando a "máquina"
que produz o amor familiar, que é o que dá sustentação
e motivação para vencer os grandes desafios da vida e do
futebol. Por fim, o último aspecto que gostaria de destacar
neste quadro belíssimo da família Scolari e que deveria
ser admirado por muitos educadores, é o exemplo de religiosidade
de "Patriarca". Quantas pessoas hoje - a maior parte, sem dúvida,
por ignorância, por falta de oportunidade, de experiência
- confiam mais nas suas próprias capacidades, nos seus talentos,
na própria experiência de vida, na força que tem o
dinheiro em muitas ocasiões, ou no "tráfico" de
influências e desprezam a força da religiosidade. Quando
os jornais veicularam que Felipão foi à Missa no dia do
jogo do Brasil na Copa, muito nos fez pensar... Sem nenhum constrangimento,
pleno de convicções e de fé, nosso Felipão
confessou, em mais de uma ocasião, que é nesse encontro
dominical com o seu Deus que consegue tirar forças para exercer
um cargo que, talvez, seja muito mais sacrificado que muitos outros de
maior prestígio social. Porém, conforme declarou, não obriga
o filho mais velho a participar da Missa. Dr. Scolari sabe que nestas
matérias de religião, como também nas outras, o "Frei
exemplo é o melhor pregador". Quando vemos hoje um líder
nacional levantar novamente esta bandeira, quando está tão
pouco em moda, da oração, da confiança em Deus, da
humildade da criatura diante do Criador, sem dúvida, que só
temos a agradecer-lhe por ter tido a coragem de manifestar sua fé
para todo o planeta e nos ter ensinado mais uma de suas lições.
Este artigo está longe de pretender "canonizar" um técnico de futebol, que, como qualquer ser humano, tem suas virtudes e defeitos, ou ainda, de querer assinar em baixo de todas as suas teorias táticas futebolísticas. Mas uma coisa é certa: qualquer cidadão brasileiro que esteja sinceramente preocupado em melhorar a educação familiar e escolar tem que reconhecer a sua pedagogia, apesar de ser politicamente incorreta, é uma pedagogia vitoriosa e pode incentivar muitos pais, governantes, educadores a se questionarem e, quem sabe, mudarem certos conceitos e práticas educacionais que foram se cristalizando nos últimos tempos, mas que, infelizmente, têm dado frutos amargos em vários setores da sociedade brasileira. * João Malheiro é mestrando em educação pela UFRJ e diretor do Centro Cultural das Laranjeiras Fonte: INTERPRENSA - ANO VI - Número 60 - Agosto/2002 - www.interprensa.com.br |
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