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João Malheiro, educador
Coluna "Pinceladas Educacionais"

A paixão por educar

João Malheiro

Acabo de voltar de um congresso internacional de educação, com mais de 1000 professores participantes. Organização impecável, palestrantes renomados, temas bastante pertinentes. Mais uma vez, minha contribuição girou em torno do papel da ética na educação e da importância do ensino-aprendizagem das virtudes morais para que o professor seja uma pessoa apaixonada pela profissão. A reação do público, em geral, foi muito positiva.

Filosofando no avião de volta, questionei-me: por que sou praticamente, nos últimos anos, o único a abordar estes assuntos éticos em congressos e seminários de educação? Por que, enquanto vou expondo tais ideias para o auditório, percebo que estou falando em uma — para muitos —nova linguagem? Por que muitos têm dificuldade em acompanhar o raciocínio que desenvolvo? Por que os olhos da grande maioria brilham diante das principais ideias?

Posso intuir que o público que, em geral, frequenta estes eventos educacionais – via de regra professores do ensino público – é oriundo de duas ou três das gerações passadas nas quais a educação ética praticamente não existiu. Além disso (e por causa disso), sabemos que a cultura reinante na sociedade do século XXI é a filosofia relativista e/ou emotivista, nas quais se postula que não é possível acudir a razões objetivas para justificar os princípios éticos que cada qual deve utilizar nas suas escolhas. Parece que existe como que um acordo implícito no sentido de que os princípios éticos são uma questão de preferências pessoais e, por isso, cada qual deve viver conforme acredite ser o certo. Naturalmente, diante desta desordem social, facilmente cai-se na descrença da própria racionalidade humana e de sua missão de buscar a verdade. Como decorrência, a identidade do professor, que consiste em guiar, conduzir o aluno e extrair suas melhores capacidades, fica desfigurada. O próprio conceito de autoridade – auctoritas, aquele que faz crescer – fica enfraquecido e confuso. A boa autoridade é um saber publicamente reconhecido justamente porque se acredita que esse conhecimento está correto e que será útil para orientar os que chegarem ao mundo mais tarde. Sabe-se que as boas relações de autoridade têm uma alta repercussão no crescimento pessoal da criança. Por outro lado, se ela convive com diversos sistemas de autoridade, este desajuste pode determinar sistemas conceituais diferentes, isto é, formas e níveis específicos de ser e de pensar muito confusos, prejudicando o seu equilíbrio psicológico.

Podemos afirmar, portanto, que no momento em que a ética e o aprendizado dos valores e virtudes morais deixam de existir nos objetivos educativos de uma escola, ocorre um autêntico “terremoto” educacional. O papel da escola é enfraquecido – reduzindo-se apenas a ensinar uns mínimos conteúdos disciplinares somados a uma fraca socialização —; a vocação docente perde a razão de existir e, consequentemente, diminui a paixão dos professores por ensinar; e os alunos, que intuitivamente esperavam que os mais velhos lhes ensinassem a arte de viver felizes, ficam a médio prazo desmotivados e decepcionados com a escola, sentindo-se enganados.

Acredito que, agora, podemos entender o porquê da alegria dos professores, visível quando, nas minhas apresentações acadêmicas, percebo um olhar esperançoso ao afirmar-lhes que o papel do professor é justamente potencializar o aluno a alcançar a excelência humana por meio de seus conteúdos científicos. É como se a sua vocação docente, que talvez já estivesse sonolenta , despertasse, levando o professor a redescobrir um novo sentido para a vida profissional e existencial.

Este mesmo mecanismo ocorre atualmente com a imensa maioria dos pais, protagonistas da educação. No momento em que não enxergam claramente o caminho do certo e errado, quando não se preocupam em refletir sobre os fundamentos de suas escolhas, naturalmente a educação de seus filhos é comprometida. O que vão ensinar, indicar, guiar, se não têm certeza de nada? Se tudo é uma loteria? Acredito que fica evidente, ao constatarmos este fenômeno nos educadores atuais, o porquê dos nossos filhos/alunos encontrarem-se com uma enorme autonomia desenfreada, bem como os motivos pelos quais o desrespeito pelos mais velhos esteja aumentando: quando a boa autoridade dos educadores diminui, o processo compensatório é sempre o crescimento da libertinagem dos jovens. Esta chaga social da atualidade é sempre uma consequência da ignorância formativa dos mais novos, os quais se inclinam a deixar-se levar pelos impulsos afetivos, quase sempre irracionais e desumanos.

Mas precisamos ir mais fundo: por que nasceu na sociedade este movimento tão destrutivo do ponto de vista social? Por que encontrou tão pouca resistência ao ser implantada? Afinal, não parece tão evidente que será impossível viver uma justiça e uma harmonia entre os homens quando se despreza seu “manual de instruções”? É real viver um contrato social ou buscar o chamado consenso cultural?

As respostas a tais questões já foram dadas na obra de Alasdair MacIntyre, principalmente em “After Virtue” (“Depois da Virtude”). Em seu preciso e completo rastreamento histórico, o autor defende a tese de que a desordem ética vem de um movimento pendular que parte da ética kantiana, inspirada no iluminismo europeu, até à de Nietzsche, que gerou a desconstrução ética dos nossos dias.

Entretanto, se caminharmos mais alguns séculos para trás e refletirmos sobre o que levou as pessoas do passado a estar continuamente tentando “inventar a roda” da realização humana, perceberemos que as raízes são mais ou menos parecidas com a geração atual. Meditemos sobre quais são:

Em primeiro lugar, é preciso ter claro que viver eticamente exige um esforço e uma aparente renúncia — coisas que sempre deixaram o homem meio perplexo e revoltado. O homem nasce com uma inclinação ao que é mais fácil, prazeroso e ilimitado, apesar de contar quase sempre com a voz da consciência, que dita “faça o bem e evite mal”, “pense primeiro nos outros e depois em si” etc. Por isso, toda renúncia ao prazer sempre foi confundida pelas pessoas com a perda da liberdade. A descoberta dos verdadeiros valores deve passar por um trabalho de educação cuidadoso e longo, desde a infância, para que o homem possa interiorizar a capacidade de escolher bem, de escolher o bem, na prática. Quando isto não acontece, fica difícil alcançar a ética da substituição, isto é, trocar o que aparentemente é um bem pelo que realmente é um bem.

Mas há outro motivo, ainda mais profundo, que ocasionou o afastamento da ética: o orgulho humano. As pessoas evitam a sensação de certeza sobre algo porque temem a sensação de terem errado sobre aquilo e precisarem mudar. Afinal, é desolador sentir-se fracassado quando se pensava que se estava certo. As pessoas hoje preferem viver constantemente numa ignorância vencível, adiando a busca de uma possível mudança, para não saírem de uma zona de conforto ilusória. São enganados pela tentação bíblica de nossos primeiros pais: “Sereis como deuses, determinadores do bem e do mal”. Atualmente, minhas pesquisas educacionais giram em torno da realização existencial de jovens de sucesso profissional dos 25 aos 35 anos, que vivem nesse engodo. Consegue-se detectar facilmente os diversos e constantes caminhos de fuga da realidade e as repetidas miragens de felicidade dessas pessoas. No final de uma conversa franca e amiga com esses “jovens gigantes”, a conclusão é quase sempre a mesma: estão com uma imensa sede de felicidade e de sentido.

Portanto, gostaria de deixar três conselhos claros para os pais e professores que querem adquirir a paixão por formar integralmente os filhos/alunos: 1) Se deseja amar realmente seus filhos, busque uma formação ética sólida, baseada numa antropologia filosófica normal, sem grandes confusões eruditas. Literatura deste tipo deve ser buscada com pessoas que transmitam confiança ética. Cursos especializados nestas matérias também começam a aparecer e vale a pena participar deles. 2) Exerça esse amor real guiando os seus filhos/alunos nos valores e virtudes que você vive porque está convencido empiricamente que funcionam. Não existe nada mais convincente do que a própria vivência ética. Aprenda a conciliar carinho, fortaleza e compreensão: é uma ciência que durará até ao final da vida. 3) Não tenha medo de colocar limites claros e de castigar seus filhos/alunos quando percebeu que não respeitaram essas leis. Eles aprenderão para sempre que não deveriam ter ultrapassado a “linha vermelha” e que castigar, feito de forma inteligente e correta, significa amar de verdade.

Concluamos com Cal, médico e filósofo contemporâneo: “É essencial para a mente sã que experimente a incerteza de achar-se seguro – correndo-se assim o risco de estar errado – , ao contrário da mentalidade atual que, não tolerando o risco de estar errado, escolhe estupidamente não achar-se certo sobre qualquer coisa.” Espero que este artigo tenha despertado no leitor uma escolha oposta à última que Cal aponta, e que deseje conhecer melhor o certo e errado sobre o homem. Para isto, a natureza nos deu a racionalidade teórica e prática. Espero ainda que a alegria que contemplei nos olhos dos professores do congresso internacional de educação, o qual me motivou a escrever este artigo, tenha se multiplicado no leitor, por ter encerrado a leitura com uma renovada paixão por formar seus pupilos nos verdadeiros valores humanos!

professora e alunos

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João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Colégio Porto Real, Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. É autor de vários livros como "A Alma da Escola do Século XXI", "Fortalecer a Alma da Escola" e "Escola com Corpo e Alma", da Editora CRV Ltda. É palestrante sobre vários temas de educação em colégios e universidades. Especialista sobre Valores e virtudes ética na escola. No final de 2017, lançou o seu quarto livro - A PRECEPTORIA NA ESCOLA. UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA DE SUCESSO, finalizando sua "tetralogia".

E mail: joao.malheiro@colegioportoreal.org.br

Publicado no Portal da Família em 18/05/2014

 

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