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Marília Pêra – Vissi D ‘arte

Marília Pêra

É uma das principais árias do repertório operístico. Maria Callas foi uma intérprete notável deste personagem cuja a dramaticidade e sensibilidade se assemelhava a maior atriz que o Brasil já teve – Marília Pêra.

Havia uma linha muito tênue no teatro dessas duas intérpretes. Era como se uma se “reconhecesse na outra” na fragilidade de ambas. A ópera Tosca se baseia no drama francês de Victorien Sardou. Composta pelo Maestro italiano Giacomo Puccini (1858 – 1924).

Marília se apaixonou pelo Canto, frequentava as óperas no Teatro Municipal do Rio de Janeiro com frequência.

De formação clássica, pois se formou em Ballet e Piano. O encontro com a ópera, era a coroação de uma atriz consciente da sua profissão. Marília era de uma disciplina ímpar – herança do ballet que a acompanhou por toda vida. Esse era o seu diferencial. A disciplina. Marília não se incomodava de ensaiar a exaustão, para chegar a alma do personagem. Era de uma entrega total. Seu gosto particular pela arte lírica fez eco a performance de Maria Callas. Ambas eram obstinadas pelo seu ofício obedecendo criteriosamente uma partitura. Assim eram as palavras ditas por Marília. Não importava se fosse a atriz principal, ou não. Marília aparecia, não havia como tirar o olho dela. Era um gesto aqui, um detalhe na boca ali. Um caminhar acolá. Marília transbordava talento.

Vivo para a arte, vivo para o amor”! Tosca questiona Deus, o motivo de tanto sofrimento e dor, afinal ela sempre foi tão piedosa.

Sarah Bernarhdt (1844-1923), aclamada, em sua época, como a maior atriz de teatro neste papel. Assim como Tosca, Marília viveu para arte, viveu para o amor.

O ator faz de tudo para conseguir responder com dignidade a determinado personagem que lhe é confiado, daí o desgaste. O artista quer ser amado. Marília queria ser amada. E fazia o seu melhor sem medir esforços. Havia um caminho de estudo para chegar ao personagem, que alguns não compreendiam. Uma atriz que quer se maquiar, se pentear? Uma atriz que vai para o set de filmagem com uma mala com o material que ela pensou usar em sua personagem, pois havia um estudo antes. Havia toda uma pesquisa para interpretar determinada personagem. E ali, naquela mala estava o sonho da menina que cresceu nas coxias do Teatro junto a seus pais atores. E Marília, chegava com a peruca que ela pensou em usar naquela personagem. A cor do batom...etc... aos poucos ela ia compondo seu personagem a cada compasso.

Marília era artífice da sua própria arte!

Tive oportunidade de assistir Marília Pêra em diversos espetáculos e quase sempre assistia o mesmo espetáculo mais de uma vez. Era lindo ver uma atriz em cena da magnitude de Marília dizer o mesmo texto em dias diferentes, pois a cada espetáculo era algo surpreendente.

Em “A Estrela Dalva” de Renato Borghi – homenagem a rainha da voz - Dalva de Oliveira. Marília cantou todo repertório na mesma tonalidade que Dalva. Uma tessitura muito agudíssima desafiadora para qualquer cantora. Marília Pêra se atirou bravamente nessa tessitura que podia ser conferida com um diapasão, o que de fato ocorreu. Na época, o compositor Herivelto Martins viúvo de Dalva de Oliveira, compositor da maioria das músicas foi assistir Marília com um diapasão. Talvez por curiosidade, afinal uma atriz – cantora, cantar na mesma tonalidade de Dalva de Oliveira? Havia um misto de dramaticidade, disciplina e teatralidade de tirar o fôlego.

Com Marília tudo era possível!

Foi assim com “Mademoiselle Chanel” de Maria Adelaide Amaral uma montagem primorosa alinhada a sublime interpretação de Marília. Elogiada pela crítica francesa. Marília se apresentou em Paris de 24 de Junho a 2 de Julho de 2005 no Teatro Comedie dês Champs–Elysée. Aplaudida de pé em todas as apresentações, com legendas em francês. Recebeu elogios de Karl Largfeld e a própria Maison Chanel, que confeccionou todo figurino.

Em “Elas por Ela” com roteiro de Geraldo Carneiro, Marília nos apresentou ou melhor, interpretou uma fase marcante da MPB vivida por cantoras que fizeram história como: Carmen Miranda, Araci de Almeida, Angela Maria, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Nana Caymi, Nara Leão, Wanderléia, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Elis Regina, Clementina de Jesus entre outras. Em cada uma delas havia riqueza de detalhes essenciais que era viva a presença da cantora homenageada. Desde os trejeitos e timbre hipnotizantes.

Em “Gloriosa” de Peter Quilter, Marília se superou. No papel de Florence Foster Jenkins. Uma milionária cantora lírica, completamente desafinada que alugava os grandes Teatros da Europa para seus concertos. Não resta dúvida que foi mais um desafio que Marília se impôs, afinal deveria agir totalmente contrária a tudo que sabia em termos vocais para assumir então a personalidade de Florence. Um verdadeiro show de competência e capacidade. Domínio total do seu aparelho vocal. Impossível vê-la apenas uma vez.

“Herivelto como conheci” baseado no livro homônimo de Cacau Hygino e Yaçanã Martins, filha de Herivelto e Lurdes. Emoção de princípio ao fim. Marília canta e conta o grande amor vivido por Herivelto. Um lindo espetáculo em que a música impera e a voz soberana protagoniza o espetáculo do jeito que Marília gostava. Cantava plena, conversava com a plateia.

“Alô Dolly” de Michael Stewart com direção e adaptação de Miguel Falabela. Era sua despedida dos palcos. Marília não economizou em talento, e sabedoria foi ao seu máximo. Dançava, cantava e representava. Era absoluta. Sua Dolly Levi foi imortalizada e ficará para sempre no coração do público privilegiado que a viu atingir o auge do seu Teatro.

O palco era sua sala de estar, onde recebia seu público com todas as honras de uma Diva. A casamenteira Dolly Levi, nos alegrou e nos tirou do comum todo tempo. Ali, víamos uma Marília no seu apogeu da comédia, área que dominava muito bem. Sempre com muita delicadeza e suavidade. Nos levava para outro tempo e lugar. Aliás como disse anteriormente, Marília tinha a capacidade de pegar o público pela mão e o conduzir. Essa capacidade, é só para os imortais!

Brava Marília!

Fim do 1° ato.

Conquistou ao longo de sua carreira cerca de 80 prêmios, atuando em 49 peças, 29 novelas e 24 filmes.