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André Gonçalves Fernandes
Coluna "Lanterna na Proa"

Paternidade e sucesso

André Gonçalves Fernandes

Sempre que posso, assisto ao reality show chamado O Aprendiz (o original e não a cópia tupiniquim) e fico impressionado com o esforço e a dedicação dos participantes em ganhar a competição e se tornar o mais novo aprendiz do bilionário Donald Trump, sinônimo de sucesso nos negócios, com direito a um assento em sua multifacetada organização.

Resumidamente, a competição conta com 12 participantes, os quais são distribuídos em duas equipes. Em cada semana, uma mesma tarefa é atribuída e vence a equipe que tiver mais lucro ou for mais criativa na concepção de um projeto. Em suma, ganha a equipe que demonstrar maior entrosamento entre seus membros e for mais eficaz na tomada e na articulação de suas decisões. A equipe perdedora vai para a diretoria , onde um de seus membros ouve o próprio Trump dizer : “ está despedido! ”.

Penso ser louvável todo o esforço dos competidores, pois buscam uma boa colocação profissional entre os melhores no mercado de trabalho, ainda que seja meramente por dinheiro. Todavia, a lição que levo de cada episódio consiste em buscar, com muito empenho, além do prestígio profissional, aquilo que poderia ser chamado de prestígio paternal, ou seja, um reconhecimento – da parte de nossos filhos - de que nós, pais exclusivamente, somos bem sucedidos na tarefa de educação deles. E isso é muito mais gratificante que ouvir um elogio do Trump, porque é uma meta tanto ou mais difícil que a de ser um exemplo profissional.

De uns tempos para cá, a figura do pai vêm perdendo parte considerável da liderança moral que detinha na família. Muitos sequer tomaram consciência do grau de desgaste que seu papel sofreu e das delicadas conseqüências que isso tem para a felicidade da prole. Outros achavam que desempenhavam bem seu script apenas proporcionando um nível bom de conforto à família ou compensando sua diária ausência presenteando os filhos com mimos de três ou quatro dígitos.

Todavia, a tarefa de ser pai não é fácil. Ainda bem, porque só nos é caro aquilo que nos custa. Alguns pais podem ser ativos e sociáveis, outros são mais recatados e tranqüilos, outros são mais magros ou, ainda, obesos e pouco instruídos. Há os geniais e aqueles menos dotados de inteligência. Enfim, o traço comum a todos os pais bem-sucedidos é a força de caráter que, naturalmente, atrai, como a gravidade de qualquer corpo celeste, o respeito da esposa e dos filhos.

Os pais de sucesso são sócios de suas mulheres numa visão de empreendimento conjunto. Apreciam os sacrifícios da esposa e demonstram esse apreço diante das crianças. Também refletem no caráter dos filhos quando adultos, em suas qualidades e não somente nas escolhas profissionais. São educadores de adultos e não de crianças e, por isso, debatem freqüentemente com a esposa a respeito das virtudes e dos defeitos da prole.

Os pais de sucesso conversam com os filhos e sobre os mais variados temas. A conversa é o meio mais comum de “descanso” em casa, ocasião em que falam da infância, da juventude, do namoro, das escolhas profissionais, das dificuldades da vida a dois e, também, do último título conquistado pelo time de coração. Não impõem seu ponto de vista, mas o fazem ser respeitado pelos filhos, o que, evidentemente, importa em, também, ouvi-los e muito, de sorte que podem bem orientá-los, esperançosos de que se tornem homens e mulheres honrados no futuro.

Os pais de sucesso restringem o uso da televisão ao mínimo, pois, em demasia, afoga o diálogo e não permite à criança exercer alguma atividade construtiva ao lado do pai naqueles poucos anos que passarão todos juntos. Para esses pais, a disciplina é um dos meios de formar o autocontrole das crianças desde cedo, porque vencer os próprios sentimentos traz domínio de si no amanhã.

Os pais bem-sucedidos confiam e não abusam da autoridade que exercem sobre os filhos. Não se servem dela para o atendimento deste ou daquele capricho, e, não raro, cedem ao desejo do filho quando convém. Os pais bem-sucedidos têm um bom número de amigos, dado que a amizade traz a superfície o que temos de melhor e é bom que os filhos vejam isso e descubram quem são as pessoas que o pai respeita e porque as respeita.

Contudo, os pais mais bem sucedidos são os que sempre antepõem o bem-estar da família às necessidades do trabalho, porque sabem o preço futuro da negligência de hoje, estão cientes de que não há uma conquista profissional que compense a perda do respeito dos filhos e, sobretudo, estão certos de que toda realização profissional, por mais nobre que seja, está fadada ao ocaso, mais cedo ou mais tarde, somado ao fato de que têm apenas uma chance de formar bem sua prole.

No entardecer da vida, os pais bem-sucedidos receberão a recompensa pelo esforço de décadas: um sucesso muito maior que o de ser “o aprendiz”, o sucesso de seus filhos. Esses pais verão como seus filhos se transformaram em mulheres e homens seguros, responsáveis e empenhados em viver de acordo com a educação que receberam, porque viram no pai, natural e inconscientemente, durante toda a vida, um herói e não alguém que merecesse ouvir, se isso fosse possível, toda vez que chegasse em casa depois de um dia de trabalho, a seguinte exclamação: está despedido!

Pai e mãe com filhos na garupa

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André Gonçalves Fernandes é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Mestre e Doutorando em Filosofia e em História da Educação pela UNICAMP. Juiz de direito titular de entrância final. Pesquisador do grupo Paideia, na linha de ética, política e educação (DGP - Lattes) e professor-coordenador de metodologia jurídica do CEU-IICS Escola de Direito. Coordenador do IFE Campinas. Juiz Instrutor e articulista da Escola Paulista da Magistratura. Colunista do Correio Popular de Campinas, com especialidade na área de Filosofia do Direito, Deontologia Jurídica, Estado e Sociedade. Experiência profissional na área de Direito, com especialidade em Direito Civil, Direito de Família, Direito do Estado, Deontologia Jurídica, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica. Membro da Comissão Especial de Ensino Jurídico da OAB, da Escola do Pensamento do IFE (www.ife.org.br), do Comitê Científico do CCFT Working Group (Diálogos entre Cultura, Ciência, Filosofia e Teologia), da União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP), da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) e da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas. Detentor de prêmios em concursos de monografias jurídicas. Autor de livros publicados no Brasil e no Exterior e de artigos científicos em revistas especializadas. Titular da cadeira nº30 da Academia Campinense de Letras.

E-mail: agfernandes@tjsp.jus.br

Publicado no Portal da Família em 14/07/2015

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