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João Malheiro, educador
Coluna "Pinceladas Educacionais"

Não desistamos de formar!

João Malheiro

Recentemente fui convidado para dar uma palestra num famoso colégio de uma capital brasileira, muito bem conceituado no ENEM. Como costumo fazer, cheguei mais cedo, conversei com o diretor, com alguns professores e procurei mergulhar no contexto dos principais problemas do ambiente escolar. Nos colégios de hoje, as dificuldades são mais ou menos parecidas. Porém, desta vez, detectei uma adversidade que não esperava, e que me atingiu como um raio! A “descarga elétrica” ocorreu quando perguntei qual era, no momento, a grande angústia do corpo diretivo. A resposta foi fulminante: “A continuidade do colégio! Os fundadores antigos já não querem mais nada, e os proprietários mais jovens só se preocupam com o carro do ano. Não sei para quem passar o ‘timão’”.

Confesso que não podia esperar uma resposta mais triste! Um colégio de longa história educativa estava agonizando. Na hora pensei: e qual vai ser o futuro dos 3.500 alunos que via pela janela brincando felizes nas quadras esportivas de primeiro mundo? Quem vai formá-los se uma grande maioria de pais também está “jogando a toalha”, ou já terceirizou faz tempo esta missão de educar, porque se considera incapaz ou alega falta de tempo?

Quem é compromissado com a educação e vive dentro do ambiente escolar há muito tempo tem percebido este processo de desesperança e desmotivação educativas. Muitos têm buscado identificar suas causas, e até conseguem apontar para alguns possíveis fatores, mas o quadro continua dominado por certa paralisia. O objetivo deste artigo é tentar despertar muitos pais e professores dessa modorra, e conscientizá-los de que é possível vislumbrar novos rumos. Para isso, vale a pena fazermos um pouco de rastreamento histórico e tentar aprender com os antigos...

Quando meus pais me puseram na escola, família e escola eram parceiros. Havia um projeto educativo personalizado, de cuja construção e realização participavam professores, tutores, coordenadores, pais e alunos. Havia valores, virtudes, ideais de vida, vibrações com as conquistas de melhora. Eu ia à escola basicamente para buscar a excelência humana e me tornar uma pessoa feliz! Que saudades tenho daqueles finais dos anos 60...

Quando iniciei minha vida profissional como educador e professor, nos anos 80, família e escola ainda eram parceiros, mas já não se percebia o mesmo interesse dos pais em participar ativamente da escola. Os filhos já não eram o principal negócio de suas vidas. O importante na altura era conquistar certas “liberdades” para dedicar-se a outros negócios. A formação e a dedicação aos filhos ficaram em outro plano. Os professores, oriundos ainda de uma sólida formação e de ideais transcendentes, aceitavam essa ausência dos pais, uns com autêntico sentido vocacional, outros com resignação.

O que podemos contemplar atualmente em quase todas as instituições de ensino brasileiras é que a família deixou de ser parceira da escola, passando a encará-la como mais uma prestadora de serviços educacionais. Muitos pais veem no centro educativo apenas um lugar onde seu filho deve aprender uma série de conteúdos da forma mais lúdica possível e sem esforço, e esquecem (talvez nunca tenham aprendido) que a escola deve ser muito mais do que isso. E a escola, ao querer adaptar-se à clientela para sobreviver financeiramente, ao invés de ser um lugar privilegiado para formar a inteligência teórica (a que permite ao aluno adquirir os conteúdos), a inteligência prática (a que o faz aprender a escolher aquilo que o torna realmente feliz), a vontade (que harmoniza inteligência e afetividade rumo ao bem) e, por fim, a afetividade (instintos, sentimentos, emoções, paixões) direcionado-a para os outros, acaba cedendo às leis do mercado. É a morte da “alma da escola”!

Como vemos, a relação família-escola vem descendo a ladeira já faz muito tempo e não sabemos ainda qual será o próximo estágio neste casamento conturbado. Mas uma coisa é certa: ao analisar este processo histórico, é possível identificar algumas das causas responsáveis pela destruição educativa. Caso consigamos eliminá-las, nós educadores poderemos, sem dúvida, sonhar com a “ressurreição” da “alma” da escola e recuperar o seu papel social e a identidade dos profissionais da educação.

Fica evidente que o primeiro fator determinante foi o enfraquecimento do amor dos educadores. Quando pais iniciam esse processo de troca de formação dos filhos por dinheiro/prestígio/poder/libertinagem, a própria missão de educar se deteriora. Educar é amar. Uma pessoa que ama está educando o dia todo porque quer o melhor para os seus. Conforme definia Aristóteles, amar é querer o bem do outro pelo outro. Quando o amor se debilita, enfraquece-se a vontade de educar, e passa-se a pagar para que outros “amem” — estes outros podem ser professores, brinquedos de todos os tipos etc — na ilusão de que isso é possível. Obviamente, o que se planta é o que se semeia. Geram-se filhos egoístas, simplesmente porque nunca aprenderam a linguagem do amor. Este processo é o que tem provocado, em parte, o “descer da ladeira” nas últimas décadas. Muitos professores, vindos das mais novas gerações, também se veem muitas vezes influenciados por essa cultura, e cedem na missão de formar os alunos, desfigurando-se.

Outro fator que contribuiu fortemente para esse processo de definhamento foi a influência de filosofias relativistas. A partir do momento em que, depois do enfraquecimento da vontade e do amor, reina o atrofiamento da verdade, penetrando em muitas famílias e escolas de forma avassaladora, o indiferentismo e permissivismo éticos dão espaço para atacar sistematicamente os valores e virtudes, vistos como formas de autoritarismo e intolerância. Pais e professores sentem-se acuados e desistem de formar com medo de serem chamados de retrógrados. A escola, sem perceber, acaba formando ditadores em potencial, dando aos alunos de forma precoce uma autonomia que estes ainda não têm condições de administrar.

Um último fator (sem pretender esgotá-los) que sobressai como determinante para este enfraquecimento da relação família-escola é o domínio da cultura materialista. Efetivamente, pais, professores e alunos vivem pressionados por uma sociedade consumista que põe em tela de juízo o passado e não deixa pensar no futuro. As pessoas não têm mais tempo para refletir na vida, e isto sequer lhes interessa. Querem viver o presente com voracidade, com o único afã de realizar o imediato. As ofertas da sociedade de hoje estão dirigidas fundamentalmente ao prazer e à diversão, tendo como público alvo primordial as pessoas que fogem dos compromissos e do sacrifício. O filósofo espanhol Enrique Rojas chama essa sociedade de sociedade light, na qual domina a superficialidade e a informalidade.

Obviamente, uma cultura assim favoreceu claramente a desistência de famílias e escolas da tarefa formativa. Mas perguntemo-nos sinceramente: será que a juventude melhorou com esta nova maneira de viver? Estão mais felizes, mais maduros, mais realizados, mais saudáveis?

Fica claro, portanto, que, se queremos fortalecer os laços família-escola, é preciso resgatar valores como o verdadeiro conceito do amor; a crença em que é possível alcançar a verdade do ponto de vista racional; e que a afetividade feliz é aquela que passa justamente por essa racionalidade e pelo compromisso do amor.

Graças a Deus, conheço atualmente inúmeras famílias jovens que estão em busca de resgatar estes valores. Famílias que se matriculam na “Universidade de pais”, como na Espanha (cfr. www.universidaddepadres.es ), para aprender a ser pais; famílias que fundam suas próprias escolas, buscando alternativas inovadoras que acreditem ser melhores para os seus filhos; professores que se reencontram a si mesmos procurando aprofundar nos esquecidos (ou nunca aprendidos) conceitos éticos de forma a poder mesclar seus conteúdos específicos com esses conhecimentos; e, ainda, cada vez mais se tem visto mães e pais de família que sabem recortar o precioso tempo profissional para “trabalhar” com os filhos em casa ou participar ativamente de palestras na escola dos filhos.

Portanto, acredito que todo leitor deste artigo terá percebido que, em parte, depende de si acender novamente a chama da esperança da formação de seus filhos (e amigos dos filhos), e afastar com decisão toda a tentação de desistir desta missão que, sem dúvida, é a que mais vale pena nesta vida, porque as crianças nunca se esquecerão do que fizermos por eles! Mãos à obra!

crianças: nunca se esquecerão do que fizermos por eles

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João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Colégio Porto Real, Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. É autor de vários livros como "A Alma da Escola do Século XXI", "Fortalecer a Alma da Escola" e "Escola com Corpo e Alma", da Editora CRV Ltda. É palestrante sobre vários temas de educação em colégios e universidades. Especialista sobre Valores e virtudes ética na escola.

E mail: joao.malheiro@colegioportoreal.org.br

Publicado no Portal da Família em 18/05/2014

 

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