Portal da Família
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MALES DA LIBERDADE |
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André Gonçalves Fernandes |
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Se consideramos a vida moderna, comprovamos que aquilo que se apresenta como modelo ou como exemplo na mídia é sempre minoritário. Creio que se trata de um problema curioso. Pense-se, por exemplo, na televisão: nela, certas pessoas ou grupos de pessoas que falam, emitem as suas opiniões e a sua forma de ver as coisas. Estas pessoas são poucas, muito poucas. Parece algo de menor importância, mas não é bem assim: importa, e muito, porque é o que se vê e o que se torna o ponto de referência do indivíduo. Não se compreende muita coisa de nossa época sem termos em conta esta pressão coletiva, minoritária, na realidade, mas com efeitos sobre todas as classes e níveis sociais. E como esta influência é enorme, a situação da moral coletiva é inquietante. Esses influxos, que afetam a todos, têm o efeito de uma inundação. Muitos deles são discutíveis. Outros, que poderiam ser perigosos, são efêmeros. A televisão gera efeitos amplíssimos: são efeitos muito difundidos, contudo, em geral, duram pouco. Produz-se, então, um estreitamento do horizonte intelectual ou, de certa forma, uma manipulação, que se poderia chamar de manipulação consentida, que, do ponto de vista da moral, é grave. Há pessoas que vivem a partir delas mesmas, que têm as suas convicções pessoais, que podem não ser muito boas, mas são pessoais e que, portanto, não se deixam manipular, exercem a sua liberdade. Entretanto, existem muitas pessoas que estão num estado de passividade, que aceitam o que se divulga como se fosse a própria realidade, que não fazem questão sequer de refletir sobre a informação recebida. Assim, permitem que a sua vida seja orientada, configurada por esses influxos originariamente minoritários: as pessoas que controlam os meios de comunicação são muito poucas e representam um setor que exerce uma influência enorme na vida dos indivíduos e na formação da chamada opinião pública. Não acredito que a nossa época seja especialmente imoral. Acredito que já houve épocas muito piores que a nossa.Todavia, a nossa é uma época de muita desorientação. De fato, há muitas pessoas que, na realidade, não sabem ao que se ater, não sabem direito o que pensam, acatam o que se divulga sem muito entusiasmo, com certa apatia ou debilmente, mas o aceitam. Surge daí uma espécie de indefinição. Acredita-se que tudo é aceitável. “Mas é claro, por que não?” e uma sensação de incerteza paira no ar logo em seguida. Atualmente, as pessoas acreditam que não se pode julgar acerca de nada e que tudo dá na mesma no final das contas. Chama-se a isso liberdade. Liberdade não é dizer o que me passa pela cabeça ou o que o vizinho me diz ou o que o chefe manda fazer. Liberdade é o que eu posso querer pessoalmente. Daí que muita gente não possa querer o que faz. Não pode querê-lo: agem sem mais nem menos. O único remédio para esta situação está no exercício da liberdade. O problema está em que muitas pessoas não atuam livremente, não agem do fundo de si mesmas, não decidem, não escolhem o que livremente querem, o que realmente consideram correto. Deixam-se levar pela vida... Em última análise, a recuperação da saúde da vida moral depende do exercício da liberdade, da afirmação da liberdade. Como pode facilmente se depreender, após insistir na influência do coletivo, acredito que o fator crucial, paradoxalmente, é deslocar o ponto de apoio para a vida individual. E aquilo que se apresenta como influxo coletivo tem sua origem em grupos minoritários, isto é, origina-se em vidas individuais. Trata-se, portanto, de evitar que uns poucos aproveitem as possibilidades técnicas do mundo atual para manipular os indivíduos e despojá-los da sua realidade propriamente pessoal. Por conseguinte, ao se falar em moralidade coletiva, volta-se ao ponto de partida, ao lugar em que, propriamente, reside a moralidade: a vida pessoal. A solução para os perigos que ameaçam o indivíduo não deve ser procurada nos recursos da vida coletiva (por exemplo, na política ou na economia), mas apelando para a moral individual. O indivíduo não deve abdicar da sua personalidade, porque muitos declinam da sua condição pessoal e se deixam manipular. Fanatismos de todo tipo grassam pelo mundo e muitas pessoas embarcam neles. Ortega y Gasset, depois que esteve na Alemanha, em 1934, ao retornar, dizia aos seus alunos: “o problema está em que os alemães embarcam numa idéia como em um transatlântico”. Tinha razão e a história mostrou o estrago que o transatlântico nazista fez na Europa. No entanto, isso acontece aos alemães e aos não-alemães. Embarcam numa ideia, em regra, uma pseudo-ideia insustentável, que não se pode justificar, como se fosse um transatlântico e demitem-se da sua personalidade, deixam-se arrastar. Este é um dos grandes dilemas de nossa era e penso que deve ser considerada a vida pessoal como forma de resolução desta questão. Corrigem-se os males da liberdade com mais liberdade. |
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André Gonçalves Fernandes, nascido em 1974, é Juiz de Direito da 2ª Vara Cível e de Família da Comarca de Sumaré/SP. Graduado, no ensino fundamental e médio, pelo Colégio Visconde de Porto Seguro em 1991. Bacharel e Mestre em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1996 e 1999. Atua como magistrado desde 1997. Articulista do Correio Popular de Campinas e da Escola Paulista da Magistratura desde 2002. É membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas/SP desde 2008 e professor do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS) desde 2011. Mestrando em Filosofia e História da Educação pela Universidade de Campinas desde 2012. Fala inglês, francês, italiano e alemão. Casado e pai de 4 filhos. É torcedor do São Paulo Futebol Clube. E-mail: agfernandes@tjsp.jus.br Publicado no Portal da Família em 05/06/2009 |
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