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André Gonçalves Fernandes e filha

Coluna "Lanterna na Proa"

REFLEXÕES SOBRE O FEMINISMO

André Gonçalves Fernandes

Nos últimos anos, a mídia escrita e falada sempre faz balanços quantitativos sobre o dia dedicado internacionalmente às mulheres, o que é muito importante. Mas uma completa abordagem sobre o tema não se reduz à singeleza dos cálculos. Pesquisas recheadas de dados importantes colocam em segundo plano outros tipos de análises possíveis sobre o tema, pois as tabelas e gráficos de porcentagem nem sempre apontam algumas realidades que ultrapassam a frieza dos números.

O marco inicial, a luta das 129 tecelãs por melhores condições de trabalho em 08 de março de 1857, que culminou com uma morte coletiva por carbonização, foi substituído pela luta pela liberdade nas últimas décadas (igualdade dos direitos civis e acesso aos postos de trabalho principalmente).

 Trata-se de um nobre desejo a que devem aspirar não só as mulheres, mas os homens também. Se a mulher conseguiu sair do recôndito do lar e ser projetada na vida pública, com méritos, já que homens e mulheres são responsáveis igualmente pela promoção do bem comum, penso que a bandeira da igualdade entre os sexos foi levantada com alguma freqüência de forma equivocada.

Durante muito tempo, o feminismo lutou pela equiparação dos direitos entre os sexos. Nada mais justo. Todavia, a igualdade buscada descambou em um mimetismo do sexo oposto tanto nos seus atributos externos quanto em seus erros mais peculiares. Ao invés do feminismo militar pela emancipação da mulher naquilo que lhe é próprio e exclusivo, procurou-se trilhar por um caminho de imitação do modo masculino de atuar.

Assim, é muito comum ver mulheres que exercem “o direito” de tomar para si os erros de comportamento do sexo masculino, já que seriam prerrogativas vantajosas que devem pertencem a ambos os sexos, dada a igualdade destes. O espectro é bastante largo: desde o sexo inconseqüente, acompanhado da tríade anticoncepção total, divórcio fácil e aborto livre, passando pela falta de urbanidade nas maneiras e pela ausência de pudor e terminando na adoção dos vícios tipicamente masculinos, como a embriaguez, o jogo e as drogas. Tais escolhas produzem um perfil deformado da mulher, tão depreciativo quanto a mais machista das posturas masculinas.

Já a família é vista como uma prisão perpétua destinada a impedir a mulher de afirmar-se profissionalmente. Logo, ela deve se desvencilhar do fogão e do tanque e do bando de filhos agarrados à barra da saia a todo custo. Não necessariamente. A simplificação das tarefas domésticas gerada pela evolução tecnológica dos aparelhos domésticos proporcionou um grande alívio neste aspecto. Recordo-me até hoje das estórias do fogão de lenha da minha avó e do trabalho que meu avô e meu pai tinham para recolher e preparar a lenha. Nem se diga da geladeira, que precisava ser constantemente abastecida com gelo...

E os filhos? Como ainda não inventaram um “aparelho doméstico para cuidar de filhos”, não dá para se “livrar” da criançada, porquanto a condição materna atrela os filhos a seu regaço de forma insubstituível. É salutar que a mulher busque estudar e trabalhar, sobretudo nas famílias em que a renda do homem seja incapaz de cobrir as despesas do lar. É um grande benefício para a sociedade a participação da mulher na vida social, política e profissional.

Mas o feminismo foi além da conta, promoveu uma emancipação das mulheres dos lares a qualquer preço e, hoje, também por isso, a sociedade paga a conta (filhos mal-educados ou “educados” pela televisão, viciados em drogas, ambiente de estresse no lar, baixo rendimento escolar da prole, ausência de parâmetro de comportamento em casa).

Ultimamente, muitas porta-vozes dos movimentos feministas têm feito uma releitura do feminismo radical, admitindo o equívoco em situar a importância profissional e social da mulher apenas fora de casa, ignorando o valor que o marido e os filhos têm para ela. Concluíram que décadas de luta não atenderam as necessidades mais profundas e fundamentais da base e que muitas mulheres querem é justamente estar em casa e dedicar-se aos filhos.

Estou convicto de que a mulher não se realiza como pessoa renunciando aos atributos que lhes são peculiares. Antes de lutar contra o homem, o feminismo deve lutar pela liberdade da mulher ser valorizada como tal e de viver a diferença natural que complementa o homem. Trata-se de uma luta que busca o sentido da mudança e não o ruído que ela produz.



mãe e filho, realização

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André Gonçalves Fernandes é Juiz de Direito da 2ª Vara Cível da Comarca de Sumaré/SP. Bacharel e Mestre em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Articulista do Correio Popular de Campinas desde 2002. Casado, pai de 4 filhos e membro do Conselho de Administração do Colégio Nautas. Fala inglês, francês, alemão e italiano.

E-mail: agfernandes@tj.sp.gov.br

Publicado no Portal da Família em 06/05/2008

 

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