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Ines Rodrigues

Coluna "Do lado de cá"

Cores vindas de longe

Inês Rodrigues

“Um homem se propõe a desenhar o mundo. Com o passar dos anos, ele esboça imagens de províncias, reinos, montanhas, enseadas, navios, ilhas, peixes, abrigos, instrumentos, astros, cavalos e pessoas. Pouco antes de morrer, ele descobre que seu paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu próprio rosto”.

Jorge Luis Borges

 

Um de meus grandes fascínios de viajante e expatriada é a atração pela diferença, pelo outro, aquele que viveu uma história tão distante da minha, em outra geografia e outra perspectiva. E, muito amiúde, acabo encontrando gente até mais parecida comigo do que aqueles que deixei para trás. Foi assim que me vi diante dos trabalhos de Robina Seren-Berl. Pintora venezuelana, filha de pai turco e mãe peruana, ela vive nos Estados Unidos há dez anos. Em seus quadros há o lúdico e o mágico latino-americano brincando com a saudade e a poesia. Às vezes até emaranhados numa certa angústia de expatriada.

Robina nasceu e cresceu em Caracas. Mas a genética já lhe plantara dentro a sede de absorver cores de outros mundos: “A mistura de culturas de onde venho se reflete muito no meu trabalho. E se une a meu próprio destino”, diz ela, gesticulando e com os grandes olhos sempre atentos. “Sinto-me um pouco venezuelana, um pouco turca, um pouco americana. E adoro esse ‘não ser de lugar nenhum’. Assim não me enquadro em nenhum padrão”.

E o desprendimento é evidente nas tintas de Robina: crianças, bicicletas, cores fortes, escadas que nos permitem escapar para o céu. Em outros trabalhos, a melancolia: o homem sozinho que tem só uma cadeira como companhia (“Pintei este quadro ao me mudar de Miami para Nova York, quando me sentia muito isolada”); o sapato vermelho sem par, largado numa cadeira; as cores mais escuras, o cinza.

O ponto comum entre essas imagens? “O desejo, sempre o desejo de estar num outro lugar”, responde ela.

Mas não existe um paradoxo entre ser feliz como cidadã do mundo e viver com saudades de um só lugar? Talvez seja aí onde sua alma de artista se aferventa, se debate e cria. Robina acredita que essa aparente confusão moldou também sua arte: “Se eu estivesse na Venezuela, estaria fazendo uma pintura completamente diferente. Os artistas de lá são mais figurativos. Seguramente, o fato de estar fora me deu mais liberdade de ousar, de me inventar, de deixar fluir o que está dentro. Escapei de seguir um padrão”.

Já é hora de partir. Cumprimento Robina pela beleza de seu trabalho, saio pensando nos caminhos que percorremos neste mundo, no sentimento que compartilhamos de não pertencer a lugar nenhum. Difícil de explicar, mas tão palpável. Como as cores que ficaram impressas em mim. Quem sabe não vou a uma vernissage sua da próxima vez em que for ao Brasil? Afinal, nosso país multicolorido e tão sem preconceitos tem tudo para receber de braços abertos as pinturas de Robina.

Inês Rodrigues - 25/08/2005

 

Robina Seren-Berl – exposições recentes:

2005 – WCC - New York, WAW – New York, Salon Jerusalem – Venezuela.

 


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Inês Rodrigues e Robina Seren-Berl


Inês Rodrigues é jornalista, tradutora e mãe de dois filhos. Atuou nas editorias de artes e música em diversos veículos da imprensa brasileira como Jornal da Tarde, Editora Globo, Rádio Gazeta e Fundação Padre Anchieta. Há 6 anos fora do Brasil, já viveu na Itália e Inglaterra, e atualmente mora em Nova York.

e-mail: ines_rodrigues@hotmail.com

 

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